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A Natureza sob o Olhar Caipira

Somos natureza, não espectadores dela

 

Quando falamos em natureza, é comum pensarmos na mata, nos rios, nos animais, nas serras e em tudo aquilo que parece existir fora dos espaços onde vivemos. Especialmente nos ambientes urbanos, fomos nos acostumando a enxergá-la quase como um lugar ao qual podemos ir, contemplar, preservar ou, infelizmente, destruir.

Mas há um ponto fundamental nessa conversa: nós também somos natureza. Dependemos da água, do solo, das plantas, dos animais, do clima e de inúmeros ciclos naturais para viver. Não somos espectadores desse sistema. Somos parte dele.

 

Talvez essa separação entre ser humano e natureza fosse muito menos possível para aqueles cuja sobrevivência dependia diretamente da capacidade de observar e compreender o território onde viviam.

É por aí que começa nossa prosa sobre a natureza, sob o olhar caipira. Não porque o caipira de outros tempos fosse aquilo que hoje chamaríamos de “ambientalista”. Esse conceito sequer fazia parte de seu universo.

Mas porque conhecer a terra, as águas, as plantas, os bichos, as chuvas, os períodos de plantio e colheita era conhecimento necessário para a própria sobrevivência.

Para entender de onde vieram muitos desses saberes, precisamos voltar à formação histórica da cultura caipira e à ocupação da região que conhecemos como Paulistânia — esse grande território cultural que se estende para além das atuais fronteiras do estado de São Paulo.

 

História e matriz ancestral

Não se pode falar da ocupação do território paulista sem passar pelo bandeirismo.

Durante muito tempo, os bandeirantes foram apresentados simplesmente como homens que “desbravaram” os sertões brasileiros. Essa narrativa, porém, esconde uma parte fundamental dessa história: aqueles territórios não estavam vazios. Eram habitados por diferentes povos indígenas, muitos dos quais foram capturados, escravizados, expulsos de suas terras ou mortos durante o avanço colonial.

Também seria equivocado imaginar as bandeiras como expedições compostas apenas por portugueses avançando heroicamente por um território desconhecido. Indígenas e mamelucos tiveram presença fundamental nessas incursões, não apenas como força de trabalho, mas também pelo profundo conhecimento que possuíam da terra.

Conheciam caminhos, rios e matas. Sabiam encontrar alimento e água, reconhecer plantas, caçar, pescar, cultivar e utilizar recursos disponíveis no ambiente. Sem esses conhecimentos, dificilmente o avanço pelo interior teria ocorrido da maneira como ocorreu.

Muitas expedições deram origem a pousos e pontos de parada. Ao longo das rotas, alguns grupos estabeleceram roças e pequenos núcleos de subsistência, necessários diante das enormes distâncias dos centros litorâneos.

Alguns desses pousos se tornaram permanentes e contribuíram para o surgimento de sítios, arraiais, vilas e rotas comerciais.

É nesse longo processo histórico — marcado pelo encontro, pelo conflito e pela mistura entre diferentes matrizes culturais — que vai se formando também o modo de vida que mais tarde reconheceríamos como caipira.

E a presença indígena nessa formação não é um detalhe.

Ela está profundamente ligada justamente àquilo que interessa à nossa conversa: a maneira de conhecer e se relacionar com o território.

Aprender a ler a natureza

O conhecimento acumulado sobre o ambiente atravessou gerações e permaneceu presente em muitas práticas rurais.

Na maneira de preparar e cultivar a terra. No conhecimento dos períodos de chuva e estiagem. No uso e conservação de sementes. Na observação das fases da lua. No reconhecimento de plantas alimentícias e medicinais. Na localização e utilização das águas. Na caça, na pesca e no conhecimento dos animais.

Entre essas práticas encontramos a coivara, de matriz indígena, utilizada dentro de determinados sistemas tradicionais de cultivo. Depois do período de produção, a área podia entrar em pousio, permanecendo em repouso para permitir sua regeneração.

 

Havia o tempo de plantar. O tempo de colher. E havia também o tempo da terra descansar.

 

Talvez essa última ideia mereça nossa atenção nos dias de hoje. Vivemos em uma sociedade que aprendeu a associar produtividade à utilização permanente: a terra precisa produzir, a máquina precisa produzir e nós precisamos produzir.

Um solo em repouso pode parecer improdutivo aos nossos olhos. Mas repouso e regeneração também fazem parte dos ciclos da natureza.

Não se trata de transformar todas as práticas antigas em modelos de sustentabilidade. Também houve derrubadas, queimadas, caça e outras formas de utilização do ambiente que precisam ser compreendidas dentro de seus contextos históricos e avaliadas à luz do conhecimento que possuímos hoje.

Romantizar o passado não nos ajudaria a compreender o presente. Mas descartá-lo como simples atraso também não.

O que ficou pelo caminho?

À medida que os modos de produção e de vida se transformaram, muitos desses conhecimentos também foram sendo deixados para trás.

Alguns permanecem nas roças e sítios. Outros sobrevivem nas mãos de agricultores e comunidades tradicionais.

Alguns estão nos quintais, nas sementes guardadas de uma safra para outra, nas plantas que alguém ainda sabe para que servem, nas histórias contadas pelos mais velhos e até na observação de um passarinho que anuncia uma mudança no tempo.

E talvez exista aí uma pergunta importante.

Quantos conhecimentos perdemos quando passamos a tratar como atraso aquilo que durante gerações foi conhecimento necessário para viver em determinado território?

Hoje falamos em biodiversidade, conservação do solo, segurança hídrica, produção sustentável e mudanças climáticas. A ciência é indispensável para compreendermos os enormes desafios ambientais do nosso tempo. Mas ciência e conhecimento tradicional não precisam ocupar lados opostos dessa conversa. Ao contrário: talvez uma das possibilidades mais interessantes esteja justamente no encontro entre aquilo que hoje conseguimos compreender cientificamente e aquilo que diferentes povos e comunidades aprenderam durante gerações pela experiência, pela observação e pela convivência cotidiana com seus territórios.

Por que um Quintal Caipira?

O quintal talvez seja uma das imagens mais simples dessa relação.

Ali conviviam — e ainda convivem em muitos lugares — gente, árvores, frutas, hortas, ervas, sementes, animais, insetos, passarinhos, água, sombra, trabalho, comida, descanso e memória.O quintal não está separado da natureza.

Ele é natureza vivida.

É desse quintal, real e também simbólico, que nasce esta nova prosa do CTC Atibaia.

Nos próximos textos do Quintal Caipira, vamos olhar mais de perto para a terra e o pousio, as sementes crioulas, as águas e nascentes, as plantas, os animais, os passarinhos, os saberes indígenas presentes na formação caipira e até para nossas histórias e personagens — como a Caipora, o Curupira e a Mãe d'Água — procurando compreender o que esses conhecimentos e narrativas podem nos dizer sobre nossa relação com o ambiente.

Não pretendemos dizer que antigamente tudo era melhor.

Nem que todo conhecimento tradicional precisa ser recuperado simplesmente porque é antigo.

A proposta é outra: antes de decidir o que precisa mudar, talvez devêssemos perguntar o que não deveríamos ter esquecido.

Porque existe uma certeza da qual não podemos escapar:

somos seres vivos, parte da natureza — e não espectadores dela.

para saber mais: 

Características da Agricultura Indígena  (Embrapa, 2001) / O Parceiros do Rio Bonito - um estudo sobre o Caipira Paulista (Antonio Cândido, 1964) / Uma pesquisa pioneira para a compreensão da cultura caipira (Emílio Willems, 1940)

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